Conto antigo... nem to no mesmo clima, to numa onda mais otimista, mas aí vai.
Discussões em quartos fechados
Peço para você enumerar meus defeitos e você não se contenta em apenas me sacrificar alguns segundos em troca de ansiedade parcelada, mas se vê satisfeita em torturar-me com um joguinho de caça e rato, onde o seu cigarro representa as pausas sórdidas que eu me submeti como um cordeiro. E por que o cigarro tem de ser citado a todo o momento. Mero clichê?, ela me respondeu.
Não, cigarros são pequenas mortes parceladas e simbolizam bem o que é a ansiedade, você e o resto de algumas poucas coisas.
As pessoas devem estar saturadas com você não? Não sei exatamente. Eu nunca lhes obriguei a me aguentar na maioria das vezes. Estão aqui e ali por que querem.
Assim como você. Está ali e aqui por que quer. Você é um homem condenado a liberdade. Sim, eu sou, respondi afirmativamente mas se você entender que a máquina começa a "falhar", pode compreender que meu combustível de liberdade é uma necessidade da não-adaptação. Não-adaptados não tem escolha.
Isto faz tanto sentido para mim, ela me disse quase que sussurrando... Você continua a falar consigo mesmo. Tem uma péssima auto-estima e gostaria que o mundo fosse mais colorido. Na verdade você não é uma supresa total.
É eu não sou. Respondi firme.
Olhei para a mesinha de cabiceira. Alguns remédios jogados, tarja preta(eram meus?), uma garrafas de vodka(paguei sete e alguma coisa por esta), um comprimido para dor de cabeça no canto esquerdo perto do copo vazio com pedras de gelo derretendo e eu olhei para aquela mulher e não foi pela primeira vez que senti raiva, mas desta vez externei.
Sua filha da puta. Filha da puta! Me trata como lixo. Que se foda a poesia, que se foda tudo. Você e esta merda de papo clichê. Eu quero que você morra! Morra, está me entendendo?!?!! Que se dane. Que se foda tudo. Olhe bem em meus olhos. Olhe bem. Veja a raiva. Sinta esta merda de frustração!!
Peguei a garrafa de vodka, enchi o copo e misturei com o refrigerante semi-gelado no pé direito da cama, mexendo o dedo indicador e esperando a sua reação .
Não fui sincera com você(achei que não tinha escutado ela falar isto).
O que você disse? Eu falei mais alto.
NÃO FUI SINCERA COM VOCÊ.
E por que constrói esta imagem inexpugnável, irredutível?
Por que eu segui seus passos, ela disse abaixando a cabeça enquanto fingia acender o cigarro
Vamo ser mais diretos, respondi.
Todo mundo tem problemas, cada um reage de uma forma. O fato de eu não ser sincera em algum momento não lhe dá o direito de exigir certos comportamentos.
Tá bom. Você está certa. Meu altruísmo suicida está me matando lentamente. E você é um produto disto. Tenho que explodir mais, e não com você, eu sei.
Para mim pouco importa! Ela gritou. Que você exploda com metade do mundo! Mas o fato de você não conseguir dormir em 1/3 dos dias em que vive me faz uma refém de tempo integral. Sem contar seus sonhos ruins, isto me faz uma vítima ao invés de uma algoz como você tenta pintar. Aliás... Qual foi a última vez que você pintou?
Há uns noventa dias atrás.
E por que não pinta novamente?
Por que eu não consigo mais encarar as cores. E minha criatividade anda dando sinais de pane.
Pane. Pane. Pânico. Ela gritou e riu, tudo ao mesmo tempo. Tentarei ser mais doce, como #$@&. Ela é de carne sabe, ela falou enquanto esfregava seu dedo indicador suavemente por todo meu rosto de maneira sarcástica, irônica. De carne. Ela é real. E sabe o que é mais. O mais interessante de tudo, é que ela está viva, vivendo uma vida perfeita, não do seu lado, por que você é perdedor demais. Uma longa gargalhada de Laura contaminou todo o ambiente. E eu não pude conter a vontade de esganá-la, apesar de saber que isto seria impossível.
Perdedor demais para ela. Cabe a mim lhe entregar o que você merece!!! Ela gritou. Gritou. E gritou. Eu tapei meus ouvidos, pensando o quão maldita ela poderia ser. Vingativa como a mãe. Vingativa como a mãe. Hoje não era um bom dia. Ela não estava num dia bom. E eu resolvi arremessar a garrafa de vodka em uma das paredes e acabar com aquilo.
Ela sumiu.
E eu fui dormir. Com toda aquela sujeira em volta de mim.
escrito por Mr. Durden Poulain 11/8/2006 02:08:58 AM